ARTE SUAVE: Diante da pandemia, lutador amazonense pratica solidariedade na maior nação da Ásia central

05/06/2020 09:09

Por Portal Gazeta do Amazonas

 

MANAUS – Através do esporte, o amazonense Carlos Farias já carimbou o passaporte para vários lugares do mundo. O faixa preta de Jiu-jítsu há 12 anos já passou por Amsterdã, Nova Iorque, Boston, Abu Dhabi, Panamá, entre outros. Agora, aos 34 anos, o atleta está no Cazaquistão e encara a pandemia da Covid-19 bem longe de sua terra natal. Fora dos tatames, ele vem praticando no país transcontinental algo que aprendeu muito jovem com a arte suave: servir ao próximo.

“A pandemia foi um susto para todo mundo. Vim de Manaus para a cidade de Tuymazy, na Rússia, aceitando o convite de um grande amigo para dar aula de jiu-jítsu e aí já se vão oito meses fora do Brasil. Em março, acabei vindo para Ural’sk, no Cazaquistão, passar 15 dias para treinar a seleção de MMA amador, mas com 10 dias aqui começou a quarentena e fiquei no país, pois as fronteiras e aeroportos fecharam. Só era permitido estar na rua quem fosse trabalhar e estivesse autorizado, ou usufruindo de algum serviço essencial como a farmácia, caso contrário, pagava uma multa ou era preso por 10 dias”, contou.

O atleta conta que em Manaus sempre fez questão de praticar a solidariedade, inclusive dando aulas em projetos sociais. Quase que do outro lado do mundo, não foi diferente, Carlos é voluntário no projeto #Birgemiz, organizado pelos amigos Almat Sentaev e Asel Myrzakhmetova. A ação já atendeu quase 900 famílias em dois meses, fazendo doações de comida às pessoas carentes. Entre arrumar as cestas e a doação, são mais de 12 horas por dia de muito trabalho. As horas de dedicação, entretanto, são compensadas com a alegria das pessoas.

“Isso ajudou muito, pois temos poucos casos em relação ao Brasil, mesmo assim, como em todo mundo, a situação é bem difícil e aqui as pessoas também precisam de auxílio. Comecei ajudando as pessoas por acaso. Fui com o dono da academia para uma assembleia onde ele trabalha e chegaram sacos de batata e outros alimentos e me ofereci para carregar, quando a coordenadora do projeto perguntou se eu não queria ser voluntário. Aceitei na hora ajudar com os ranchos, que aqui falam Ранчо (paketa é a pronúncia)”, explica Carlinhos, que começa a arrumar a doação às 9h e segue para a entrega com a equipe, finalizando o trabalho, em alguns dias, pela madrugada.

Recompensa

Todo o empenho, segundo o atleta, é devolvido em forma de carinho pelas pessoas, o que em dias de quarentena, é reconfortante para a alma. No Cazaquistão, mais de oito mil pessoas foram infectadas.

“A nossa ajuda é para as famílias carentes, começa na quinta e termina no sábado à noite. Eu gosto de estar no meio, então eu carrego, eu monto, eu dirijo, eu faço tudo que posso para ajudar. Durante uma das entregas, conheci a família Majuro, uma mãe com três filhos. Fui apresentado como lutador do Brasil, e a criança mais nova foi buscar uma bola e começou a falar do Brasil, que era o país do futebol. Fiquei impressionado, pois aqui eles falam russo ou cazaque, e ele sabia falar sobre o futebol do Brasil. Quando vi, já estava mais de uma hora brincando de futebol com ele o povo falando `vamos Carlos, olha a hora` e o garotinho me segurando para brincar mais. Isso me emocionou muito, pois eu fui ajudá-los, mas quem aqueceu meu coração foi eles”, frisou o faixa marrom de judô.

Ansioso para voltar aos tatames, o atleta também se questiona como será daqui para frente, principalmente quando pensa em trabalhos e esportes que envolvem aglomeração, contato. Mesmo assim, afirma que vive um dos momentos mais gratificantes de sua carreira.

“Durante este tempo, tento fazer exercícios em casa para manter um pouco do ritmo, mas não é a mesma coisa. Nós que trabalhamos direto com contato pessoal, o esporte fica prejudicado, pois está tudo fechado e não podemos treinar e nem trabalhar, mas sei que é para o bem de todos. Ver o que está acontecendo com o Brasil, com Manaus, é assustador, e só peço a Deus que nos abençoe e que tudo passe logo para que a gente possa descobrir como vai ser a nova vida normal. O que posso dizer é que, apesar de tudo, estou feliz, pois Deus escreve certo por linhas tortas. Nunca pensei estar num País como esse”.

Reportagem, Nathalia Silveira

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